Por que o dinheiro do 13º salário some mais rápido que o do salário normal

O 13º é, na prática, metade de um salário a mais. Mas pesquisas de economia comportamental ajudam a explicar por que esse dinheiro costuma ser gasto diferente — e mais rápido — do que o resto da renda.

Feito com base num artigo acadêmico de Richard Thaler, numa explicação do Federal Reserve de St. Louis e em dados do DIEESE e de uma pesquisa CNDL/SPC Brasil (veja as fontes). Os dados do CNDL/SPC Brasil foram lidos pela cobertura da imprensa, não no release original, que não localizamos publicado. Conteúdo educativo: não recomenda produtos nem investimentos.

Por Feed Financeiro 6 min de leitura

O 13º cai na conta, parece bastante dinheiro, e some em poucas semanas — mesmo sendo, na prática, metade de um salário a mais no ano. Quem recebe o salário normal todo mês, nos mesmos R$ X, geralmente já tem um destino mais ou menos fixo para boa parte dele: aluguel, mercado, contas. O 13º chega fora dessa rotina, e isso muda tudo. Não é, necessariamente, falta de planejamento. A economia comportamental tem um nome para parte da explicação: contabilidade mental.

O que é "contabilidade mental"

Richard Thaler batizou a ideia de "contabilidade mental" num artigo de 1985, na revista Marketing Science: a economia tradicional assume que dinheiro é fungível, ou seja, que cada real vale o mesmo, não importa de onde veio nem para onde vai [1]. Segundo uma explicação do Federal Reserve Bank de St. Louis sobre o restante da obra de Thaler, na prática as pessoas quebram essa regra o tempo todo: separam o dinheiro em categorias mentais, como "dinheiro do aluguel", "dinheiro para diversão", "dinheiro de presente" ou "dinheiro de restituição" [2].

Essas categorias mudam o comportamento. Segundo uma explicação do Federal Reserve Bank de St. Louis sobre o trabalho de Thaler, dinheiro visto como "extra" — um bônus, um presente, uma restituição de imposto — tende a ser gasto com mais facilidade do que a renda do dia a dia, porque é tratado como um ganho inesperado, e não como parte do orçamento normal. O texto usa o exemplo da restituição de imposto: do ponto de vista da fungibilidade, é só dinheiro que a pessoa já tinha (um empréstimo sem juros que ela mesma deu ao governo); o uso mais racional seria quitar a dívida mais cara que ela tiver. Mas, como entra rotulado como "extra", acaba sendo gasto como se fosse diferente [2].

O 13º se encaixa direto nessa categoria, mesmo sendo previsível e garantido por lei — ele chega separado do contracheque normal, numa data diferente, e isso parece bastar para o cérebro tratá-lo como outra coisa (leitura nossa).

Esse padrão não é exclusivo do 13º. A mesma lógica tende a valer para a Participação nos Lucros e Resultados (PLR), para a restituição do Imposto de Renda e para qualquer bônus pago fora do salário mensal (leitura nossa): o que muda o comportamento é o rótulo de "dinheiro à parte", não a origem legal do valor. Em todos esses casos, é o mesmo real que está na conta — só muda a etiqueta que a cabeça coloca nele.

Quanto dinheiro é esse, no Brasil

Para ter noção do tamanho: segundo o DIEESE, o pagamento do 13º de 2025 teve potencial de injetar R$ 369,4 bilhões na economia brasileira — cerca de 2,9% do PIB —, beneficiando aproximadamente 95,3 milhões de pessoas entre trabalhadores formais, aposentados e pensionistas, com um valor médio de R$ 3.511,79 [3].

R$ 369,4 bi
injetados na economia pelo 13º de 2025, cerca de 2,9% do PIB [3]
95,3 mi
de brasileiros beneficiados: trabalhadores formais, aposentados e pensionistas [3]
R$ 3.511,79
valor médio recebido por pessoa, em todo o país [3]

Esse valor médio esconde uma diferença grande entre regiões. Segundo o DIEESE, o maior valor médio deve ser pago no Distrito Federal, R$ 5.877,00; o menor fica com o Maranhão e a Paraíba, em torno de R$ 2.400,00 — menos da metade do valor do DF [3]. A sensação de "dinheiro extra" também é uma sensação diferente, dependendo de onde a pessoa mora e de quanto ela ganha (leitura nossa).

Pra onde esse dinheiro diz que vai

Uma pesquisa da CNDL e do SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, e divulgada pela imprensa em novembro de 2025, dá uma pista de como esse dinheiro costuma ser usado. Segundo a cobertura, 54% dos brasileiros recebem o 13º, e, entre eles, 86% dizem que esse valor influencia seus gastos de fim de ano, total ou parcialmente. Os destinos mais citados foram presentes (30%), festas e confraternizações (21%) e itens pessoais adiados ao longo do ano (20%) [4].

Vale uma ressalva: não localizamos o release original dessa pesquisa, só a cobertura jornalística — então não foi possível conferir o tamanho da amostra nem a margem de erro na fonte primária (leitura nossa).

Nossa leitura · opinião do Feed Financeiro

O que esses dados não dizem

Intenção declarada não é gasto confirmado. A pesquisa pergunta o que as pessoas pretendem fazer com o 13º, não o que de fato fizeram depois que o dinheiro caiu na conta.

A soma não fecha 100%. Presentes, festas e itens pessoais somam 71% das respostas citadas na cobertura que lemos; não sabemos o que os outros 29% disseram, incluindo quem usa o 13º para pagar dívida ou poupar.

O dinheiro continua sendo o mesmo real. Do ponto de vista da fungibilidade, não existe diferença entre o real que vem do 13º e o real que vem do salário de outubro. Quem carrega dívida no rotativo do cartão, por exemplo — que este site já mostrou ter juro médio acima de 15% ao mês — paga, matematicamente, mais caro por manter essa dívida do que ganha com quase qualquer presente de fim de ano.

Não sabemos a metodologia da pesquisa de intenção. Diferente dos dados do DIEESE, que vêm de uma nota técnica pública, os números da CNDL/SPC Brasil foram lidos só pela cobertura da imprensa.

A contabilidade mental não é sempre ruim. Separar o dinheiro em categorias também pode ajudar a poupar — pode ser mais fácil não gastar o que já está "etiquetado" como reserva do que decidir, todo mês, quanto guardar do zero (leitura nossa). O problema não é categorizar; é categorizar sem perceber que está fazendo isso.

O que fazer com essa informação

Não é sobre deixar de comprar presente ou de aproveitar o fim de ano. São ideias nossas, não das fontes, para a decisão ser mais consciente:

1

Decida o destino antes de o dinheiro cair na conta

Pensar em como vai usar o 13º antes de ele chegar tende a ser mais racional do que decidir depois, quando ele já está rotulado como "extra" na sua cabeça e cada gasto parece pequeno isoladamente.

2

Faça a pergunta do salário normal

"Eu gastaria assim se fosse parte do meu salário de outubro?" Se a resposta muda só porque o dinheiro tem outro nome, vale parar para pensar — não porque gastar seja errado, mas porque a decisão fica mais consciente.

3

Dívida cara compete com qualquer presente

Um real usado para quitar dívida no rotativo do cartão rende, em juros não pagos, mais do que a maioria dos gastos de fim de ano. Isso não significa que toda sobra deva virar pagamento de dívida — só que vale colocar as duas pontas na balança antes de decidir.

4

Se você está construindo uma reserva, essa é uma data mais fácil

Avançar numa reserva com o 13º não depende de cortar nada do orçamento mensal, porque é dinheiro que não estava contado nele.

5

Lance o 13º como entrada no seu controle

Registrar o valor junto com o resto do mês ajuda a ver o dinheiro como parte do seu total, não como algo à parte.

Abrir o Meu controle

Nenhuma dessas ideias diz que presente é errado ou que fim de ano é hora de só guardar dinheiro. É sobre notar quando a forma como o dinheiro chega muda a forma como ele é gasto — e decidir com essa informação em mãos, não apesar dela.

Perguntas frequentes

O 13º é dinheiro extra de verdade?

No sentido econômico, não: é parte do seu salário anual, garantido por lei, pago em duas parcelas. A sensação de que é \"dinheiro extra\" é um efeito da contabilidade mental — a forma como o cérebro categoriza o dinheiro —, não uma característica do dinheiro em si.[1][2]

Por que esse viés existe?

Richard Thaler descreveu que as pessoas tratam o dinheiro como se ele não fosse intercambiável (fungível), separando-o em categorias mentais como \"dinheiro do salário\" e \"dinheiro extra\". Dinheiro rotulado como bônus, presente ou restituição tende a ser gasto com mais facilidade do que a renda do dia a dia.[1][2]

Os dados sobre o que os brasileiros fazem com o 13º são confiáveis?

Os números do DIEESE vêm de uma metodologia pública, com fontes oficiais (Rais, Caged, Pnad, INSS). Já os dados de intenção de uso (CNDL/SPC Brasil) foram lidos por nós só na cobertura da imprensa — não encontramos o release original para conferir o tamanho da amostra e a margem de erro, então vale ler esses números com essa ressalva.[3][4]

Isso quer dizer que não devo comprar presentes com o 13º?

Não é essa a ideia. O artigo não diz o que fazer com o seu dinheiro — isso é decisão sua. A ideia é só mostrar por que esse dinheiro costuma \"escorrer\" mais rápido, pra que a decisão, seja ela qual for, seja mais consciente.

Fontes e referências (4)
  1. Thaler, R. H. (1985). Mental Accounting and Consumer Choice. Marketing Science, 4(3), 199–214. DOI.
  2. Caceres-Santamaria, A. \"How Mental Accounting Shapes Our Financial Choices.\" Page One Economics, Federal Reserve Bank of St. Louis, 01/04/2026. Artigo completo.
  3. DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). \"Pagamento do 13º salário deve colocar R$ 369,4 bilhões na economia do país.\" Nota à Imprensa, São Paulo, 13/11/2025. Nota completa (PDF).
  4. CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e SPC Brasil, em parceria com a Offerwise. Pesquisa sobre o uso do 13º salário, divulgada em matéria do Diário do Pará em 24/11/2025. Lida pela cobertura jornalística; não localizamos o release original. Matéria do Diário do Pará.

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