Por que falar de dinheiro a dois é tão difícil

Um estudo com 4.574 casais mostrou que discordar sobre dinheiro prevê o divórcio mais do que outras brigas comuns, e que o problema não é só quanto o casal tem. Pesquisas sobre segredos financeiros ajudam a entender por que essa conversa trava.

Feito com base em três estudos acadêmicos sobre casais e dinheiro e em uma pesquisa brasileira encomendada pela Serasa (veja as fontes). Dos estudos, lemos os resumos e uma divulgação das universidades dos autores, não os artigos completos. A pesquisa da Serasa foi lida no blog da própria empresa, que não informa o instituto, o método nem a margem de erro. Conteúdo educativo: não recomenda produtos nem investimentos.

Por Feed Financeiro 6 min de leitura

Você sabe quanto seu parceiro ou parceira ganha, mas sabe quanto deve? Sabe se existe algum gasto que ela ou ele não contaria a você? Muita gente não sabe, e muita gente prefere não perguntar. Falar de dinheiro a dois costuma ser mais difícil do que falar de quase qualquer outro assunto da vida em casal, e a pesquisa ajuda a entender por quê.

Não é só quanto você tem, é como vocês discordam

Em 2012, os pesquisadores Jeffrey Dew, Sonya Britt e Sandra Huston publicaram, na revista Family Relations, um estudo com dados de 4.574 casais do National Survey of Families and Households, um levantamento americano que acompanhou famílias ao longo do tempo. A pergunta: o que no dinheiro se relaciona com o divórcio?

Segundo o resumo do estudo, os desacordos financeiros, tanto de esposas quanto de maridos, foram mais fortes para prever o divórcio do que outros desacordos comuns do casamento. E, quando esses desacordos entravam no modelo, o bem-estar financeiro do casal deixava de estar associado ao divórcio. Os autores também concluem que o desacordo financeiro está ligado ao processo conjugal, e não apenas ao assunto da discussão: as táticas de conflito e a satisfação conjugal mediaram totalmente essa relação.

4.574
casais nos dados do estudo, com relatos de esposas e maridos [1]
53%
dos brasileiros apontam o dinheiro como principal causa de brigas nos relacionamentos, segundo pesquisa encomendada pela Serasa [4]
49%
dizem já ter escondido do parceiro algum problema financeiro, na mesma pesquisa [4]

O estudo também olhou para a percepção de desigualdade financeira entre os dois. Segundo o resumo, os desacordos financeiros mediaram totalmente a relação entre essa percepção e o divórcio: sentir que a divisão é desigual se associou ao divórcio por meio das discordâncias que isso gerava, e não de forma direta.

A leitura mais simples seria "quem tem menos dinheiro briga mais". O estudo não sustenta isso sozinho: o que apareceu ligado ao divórcio foi a discordância, não o saldo.

O segredo que parece pequeno

Parte da dificuldade vem de um comportamento que os pesquisadores chamam de infidelidade financeira. Em um artigo na Journal of Consumer Research, Emily Garbinsky, Joe Gladstone, Hristina Nikolova e Jenny Olson definem o conceito como adotar um comportamento financeiro que o parceiro provavelmente reprovaria e escondê-lo de propósito. Eles criaram uma escala de 12 itens para medir isso e a testaram em 10 estudos de laboratório, um estudo de campo e dados reais de contas bancárias, obtidos com um aplicativo de gestão de dinheiro para casais, segundo o resumo do artigo.

Quem pontua mais alto na escala tende, por exemplo, a gastar mesmo prevendo que o parceiro desaprovaria, a preferir formas de pagamento discretas e embalagens sem identificação, e a esconder informações bancárias. Na divulgação da Universidade de Notre Dame, os autores dizem que o segredo pode atrapalhar objetivos do casal, como reserva de emergência, aposentadoria e quitação do financiamento da casa, e que é mais comum do que as pessoas imaginam. O estudo, no entanto, não deve ser lido como um retrato de todos os casais: o que ele oferece é um jeito de medir o comportamento e mostrar como ele aparece.

E nem todo segredo pesa igual. Em um estudo com 203 pessoas publicado na Journal of Financial Therapy, os participantes ficaram muito mais chateados e menos tolerantes com oito comportamentos escondidos, como mentir para encobrir dívidas, manter uma conta secreta ou esconder extratos do cartão. Só um levou à disposição de deixar a relação: declarar falência sem contar ao parceiro, segundo o resumo do artigo.

E no Brasil?

A Serasa encomendou uma pesquisa com 1.120 brasileiros de todas as regiões, divulgada em junho de 2025. Segundo a matéria no blog da empresa, 53% consideram o dinheiro a principal causa de brigas nos relacionamentos e 49% já esconderam algum problema financeiro do parceiro. Ao mesmo tempo, 65% dos casais afirmam conversar abertamente sobre dinheiro.

Esses números pedem cuidado. O blog não informa o instituto que fez o levantamento, o método de coleta, o período das entrevistas nem a margem de erro. Servem como indício, não como medida precisa.

Nossa leitura · opinião do Feed Financeiro

O que esses dados não dizem

Correlação não é causa. O estudo dos casais mostra que desacordo financeiro anda junto com divórcio. Não mostra que o dinheiro, sozinho, separa as pessoas: as táticas de conflito e a satisfação conjugal mediaram totalmente a relação entre o desacordo e o divórcio.

Os estudos não são sobre o Brasil. O levantamento dos 4.574 casais é americano, e nos resumos que lemos dos outros estudos não encontramos indicação de amostras brasileiras. Os resultados podem não valer igual aqui (leitura nossa).

Dizer e fazer são coisas diferentes. Na pesquisa da Serasa, 65% dos casais afirmam conversar abertamente sobre dinheiro e, ao mesmo tempo, 49% dizem já ter escondido um problema financeiro do parceiro. Pode ser que "conversar abertamente" signifique coisas distintas para cada pessoa (leitura nossa).

Segredo não é sinônimo de má-fé. Os pesquisadores medem esconder o que o parceiro reprovaria. O porquê de a pessoa esconder (vergonha, medo da reação, controle) é uma pergunta que esses dados não respondem.

Por que a conversa trava

Os estudos descrevem padrões; a explicação de por que a conversa trava é, em boa parte, hipótese, e as que seguem são nossas, não dos estudos. Dinheiro raramente é só dinheiro: carrega a ideia de segurança, de liberdade e de quem manda em casa (leitura nossa). Falar de uma dívida pode soar como admitir uma falha. Perguntar sobre um gasto pode soar como desconfiança. E quanto mais a conversa é adiada, mais pesada ela fica quando finalmente acontece (leitura nossa).

Há ainda a história de cada um. Todo mundo chega a uma relação com um jeito de lidar com dinheiro aprendido em casa (leitura nossa). Quando as duas histórias são diferentes, por exemplo uma pessoa que aprendeu a guardar tudo e outra que aprendeu a aproveitar o que ganha, o mesmo gasto significa coisas distintas para cada uma (leitura nossa). Isso ajuda a explicar por que discussões sobre valores pequenos esquentam tanto: muitas vezes elas não são sobre o valor (leitura nossa). E, nos dados do estudo dos casais, o que apareceu ligado ao divórcio foi a forma de discordar, não o saldo. Se isso vale para outros casais, aprender a discordar de outro jeito pode ser mais viável do que mudar o valor na conta (leitura nossa).

Conselhos práticos: como abrir essa conversa

São ideias nossas, não recomendações dos estudos, e nenhuma depende de produto financeiro:

1

Marque um horário, em vez de esperar a crise

Uma conversa curta e combinada, uma vez por mês, costuma ser mais leve do que uma discussão no meio da fatura aberta.

2

Comece pelo que vocês querem, não pelo que deu errado

Falar primeiro de metas em comum, como uma viagem ou uma reserva, muda o clima antes de chegar aos números.

3

Combinem um valor que cada um pode gastar sem consultar o outro

Um limite acordado reduz a chance de gasto escondido, porque o que está dentro do limite não precisa ser explicado.

Abrir o Meu controle
4

Separe o fato da culpa

"A fatura veio alta" é um fato. "Você gasta demais" é um julgamento. Se a conversa trava sempre no mesmo ponto, um profissional de terapia de casal ou financeira pode ajudar a destravar.

Nenhuma dessas ideias diz como o casal deve dividir contas ou onde guardar dinheiro: isso é decisão de vocês dois. O ponto é tornar o assunto mais fácil de abrir, antes que o silêncio faça o trabalho por vocês.

Perguntas frequentes

Brigar por dinheiro leva ao divórcio?

O estudo não diz isso. Ele encontrou que, entre os desacordos conjugais comuns, os financeiros foram os que mais se associaram ao divórcio, tanto nos relatos de esposas quanto nos de maridos. É uma associação medida em levantamento com casais, não uma prova de causa e efeito.[1]

Então ganhar mais evita o problema?

Não é isso que o estudo mostra. No modelo dos autores, quando os desacordos financeiros entram na conta, o bem-estar financeiro do casal deixa de estar associado ao divórcio. Ou seja, o que pesou ali foi a forma como o casal discordava, não só o quanto tinha.[1]

O que é infidelidade financeira?

É o termo que os pesquisadores usam para esconder do parceiro, de propósito, um comportamento financeiro que ele provavelmente reprovaria, como um gasto, uma dívida ou uma conta. Os autores criaram uma escala de 12 itens para medir essa tendência.[2]

Esconder qualquer coisa de dinheiro é motivo para terminar?

Num estudo com 203 pessoas, os participantes ficaram bem mais chateados com oito comportamentos escondidos, como mentir para encobrir dívidas ou manter uma conta secreta. Só um deles levou à disposição de deixar a relação: declarar falência sem contar ao parceiro.[3]

Os números da Serasa são confiáveis?

São resultados divulgados pela própria empresa, que encomendou a pesquisa. O blog informa a amostra (1.120 brasileiros), mas não o instituto, o método, o período de campo nem a margem de erro, então vale lê-los como indicação, não como retrato exato do país.[4]

Fontes e referências (4)
  1. Dew, J., Britt, S., & Huston, S. (2012). Examining the Relationship Between Financial Issues and Divorce. Family Relations, 61(4), 615–628. Resumo (BYU ScholarsArchive) · DOI.
  2. Garbinsky, E. N., Gladstone, J. J., Nikolova, H., & Olson, J. G. (2020). Love, Lies, and Money: Financial Infidelity in Romantic Relationships. Journal of Consumer Research, 47(1), 1–24 (publicado online em 31/10/2019). Resumo (Oxford Academic) · Divulgação da Universidade de Notre Dame.
  3. Mong, M. D., Stadthagen, H., Noguchi, K., & Jeanfreau, M. (2021). When Your Partner Cheats: Financial Infidelity in Committed Couples. Journal of Financial Therapy, 12(1). Resumo · DOI.
  4. Serasa. "Dinheiro e relacionamento: como evitar conflitos financeiros no amor." Blog da Serasa, 11/06/2025. Pesquisa encomendada pela Serasa, com 1.120 brasileiros de todas as regiões do país. Matéria do blog da Serasa.

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