Por que você gasta mais no cartão do que gastaria em dinheiro
Pesquisadores do MIT descobriram que as pessoas oferecem até o dobro em um leilão quando sabem que vão pagar com cartão em vez de dinheiro. Entender por que isso acontece explica boa parte do susto na fatura do fim do mês.
Feito com base em estudos acadêmicos e em dados do Banco Central (veja as fontes). Usamos os resumos publicados dos estudos, não os artigos completos, e indicamos quando algo é leitura nossa. Conteúdo educativo: não recomenda produtos nem investimentos.
Você abre a fatura do cartão, olha o total e pensa: “não lembro de ter gastado tanto assim.” Isso não é, necessariamente, falha de memória. Pesquisas de economia comportamental sugerem que pagar no cartão pesa menos, na hora da compra, do que pagar em dinheiro.
O leilão que mostrou o efeito
O estudo de Drazen Prelec e Duncan Simester, do MIT, foi publicado em 2001 na revista Marketing Letters. Num dos experimentos, eles fizeram um leilão de ingressos para um jogo do Boston Celtics. Sem que os participantes soubessem, metade foi instruída a pagar em dinheiro caso vencesse; a outra metade, no cartão de crédito.
Segundo o resumo divulgado pela Michigan State University, o lance médio de quem pagaria no cartão foi quase o dobro do de quem pagaria em dinheiro. O resumo do próprio artigo fala em um efeito que pode chegar a 100% e diz ser improvável que ele se explique apenas por restrição de liquidez, ou seja, por falta de dinheiro em mãos.
Por que isso acontece, e o que ainda é hipótese
Uma explicação recorrente na literatura é a “dor de pagar”. O conceito vem de outro trabalho, de Prelec e George Loewenstein (1998): ao comprar, as pessoas muitas vezes sentem uma dor imediata de pagar, que pode reduzir o prazer de consumir. O exemplo dos autores é o taxímetro girando durante a corrida.
O estudo do leilão, no entanto, mostrou o efeito, não o mecanismo: segundo o mesmo resumo da Michigan State, ele não investigou as causas. A ligação com a dor de pagar é uma interpretação plausível (leitura nossa), não um resultado medido ali.
A intuição é simples: entregar dinheiro é um gesto visível e imediato, enquanto passar o cartão é abstrato (leitura nossa). O parcelamento pode reforçar isso (leitura nossa): sem juros, R$ 1.200 à vista e 12 parcelas de R$ 100 são o mesmo dinheiro, só que cada parcela, isolada, parece pequena.
Sem juros, é o mesmo dinheiro saindo do mesmo bolso.
E no Brasil?
O Banco Central mostra o tamanho do crédito no cartão. Segundo a apresentação do presidente do BC na FebrabanTech, dos 96 milhões de usuários de cartão de crédito no país, 52,8 milhões carregam dívida, no rotativo ou no parcelamento com juros (dados de 2024, do Relatório de Cidadania Financeira 2025). O BC também aponta 54% da renda comprometida, em média, com gastos no cartão.
Os juros ajudam a entender o peso disso. Em junho de 2026, a taxa média era de 15,13% ao mês no rotativo e de 9,32% ao mês no parcelamento com juros, segundo o BC.
Banco Central do Brasil [3], com dados do SGS. O financiamento de veículos entra como referência: tem garantia real sobre o bem financiado, e o BC o aponta como a menor taxa entre as quatro linhas que apresenta.
O que esses dados não dizem
O leilão não mede o seu mês. O experimento mede quanto as pessoas oferecem por um item; não mede quanto alguém gasta ao longo do mês.
Efeito grande não é regra. O resumo do estudo fala em um efeito de até 100%. É o que apareceu nos experimentos, não o que acontece em toda compra.
Uma coisa não prova a outra. Os números do BC mostram quanta gente tem dívida no cartão. Não mostram que a dor de pagar seja o motivo.
Cartão também é crédito. O próprio BC descreve o avanço do acesso ao crédito como acompanhado de forte uso do cartão como instrumento de financiamento. Para parte das pessoas, portanto, a questão não é só percepção de gasto: é financiamento.
Conselhos práticos: o que fazer com essa informação
Não é sobre parar de usar cartão. São ideias nossas, não dos estudos, para deixar o gasto mais visível:
Acompanhe o gasto durante o mês, não só na fatura
Ver o total crescendo ao longo do mês pode ajudar a tornar o gasto mais concreto antes de a fatura fechar.
Antes de uma compra grande, faça a pergunta do dinheiro vivo
“Eu pagaria isso agora, em espécie, tirando da carteira?” Se a resposta muda conforme a forma de pagamento, vale parar para pensar.
Descubra o custo real de um parcelamento antes de fechar
Some as parcelas e compare com o preço à vista. Sem juros, o total é o mesmo; com juros, a diferença é o custo do crédito. As calculadoras do site ajudam a visualizar o efeito de taxas e de gastos recorrentes ao longo do tempo.
Abrir as calculadorasNenhuma dessas ações depende de qual banco, cartão ou investimento você usa. São ajustes de percepção, não produto financeiro.
Perguntas frequentes
O estudo prova que o cartão faz a gente gastar mais?
Não exatamente. Ele mostra que, num leilão de ingressos, quem ia pagar no cartão deu lances em média quase o dobro dos de quem ia pagar em dinheiro. O resumo do artigo fala em efeito de até 100% e diz ser improvável que ele se explique só por restrição de liquidez. É evidência de um efeito naquele contexto, não uma medida de quanto você gasta no dia a dia.[1]
O que é a “dor de pagar”?
É um conceito de Prelec e Loewenstein (1998): ao comprar, muitas vezes sentimos uma dor imediata de pagar, que pode reduzir o prazer de consumir. O exemplo dos autores é o taxímetro girando durante a corrida.[2]
Usar cartão de crédito é um erro?
Os dados do BC não dizem isso. Dos 96 milhões de usuários, mais da metade, 52,8 milhões, carrega dívida com juros, o que indica que uma parcela relevante usa o cartão sem carregar dívida (leitura nossa). O que pesa é o custo quando vira dívida: em junho de 2026, o juro médio era de 15,13% ao mês no rotativo e de 9,32% ao mês no parcelamento com juros.[3]
Como saber o custo real de um parcelamento?
Some todas as parcelas e compare com o preço à vista. Sem juros, o total é o mesmo; com juros, a diferença entre os dois é o custo do crédito.
Fontes e referências (3)
- Prelec, D., & Simester, D. (2001). Always Leave Home Without It: A Further Investigation of the Credit-Card Effect on Willingness to Pay. Marketing Letters, 12, 5–12. Resumo do artigo · Resumo divulgado pela Michigan State University.
- Prelec, D., & Loewenstein, G. (1998). The Red and the Black: Mental Accounting of Savings and Debt. Marketing Science, 17(1), 4–28. DOI.
- Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, \"Inclusão e cidadania financeira: do acesso ao uso responsável\", FebrabanTech, 24/08/2026. Os dados de cartão vêm do Relatório de Cidadania Financeira 2025 (dados de 2024); os juros, das séries do SGS (junho de 2026). Apresentação (PDF).
Feed Financeiro. Ajudamos você a entender por que lida com dinheiro do jeito que lida — sem dica de investimento, só comportamento.
Quem escreve por aqui