Dor, solução e ação: por que sentir o problema não basta

Muita gente sabe exatamente onde o dinheiro dói e, mesmo assim, demora a agir. Um modelo de Stanford e uma pesquisa britânica sobre quem espera para buscar ajuda ajudam a entender por que a dor, sozinha, raramente vira ação.

Feito com base em um modelo de comportamento do Behavior Design Lab de Stanford, em uma pesquisa do regulador financeiro britânico (FCA) e em levantamentos da Serasa (veja as fontes). Do modelo, lemos a página do laboratório, não o artigo original. Da FCA, lemos o comunicado, não o relatório completo. Os dados brasileiros são da própria Serasa, e os comunicados trazem pouca informação de método. Conteúdo educativo: não recomenda produtos nem investimentos.

Por Feed Financeiro 6 min de leitura

Você sabe muito bem quando o dinheiro está doendo. É a fatura que você abre devagar, o saldo que você confere com um olho meio fechado, o sono que não vem perto do dia do vencimento. Saber que dói, porém, não é o mesmo que fazer alguma coisa. Muita gente convive meses com a dor sem dar o primeiro passo, e isso raramente é preguiça.

Três coisas precisam acontecer ao mesmo tempo

O pesquisador B. J. Fogg, de Stanford, propôs em 2009 um modelo simples sobre por que as pessoas agem ou não agem. Segundo a página do Behavior Design Lab de Stanford, um comportamento só acontece quando três elementos convergem no mesmo momento: motivação, habilidade, que é o quanto é simples fazer aquilo, e um estímulo que leve à ação, chamado de prompt. Se o comportamento não acontece, pelo menos um dos três está faltando. A página também diz que motivação e habilidade se compensam: uma motivação muito alta pode vencer uma tarefa difícil, e uma tarefa simples pede menos motivação.

Aplicado ao dinheiro, a dor é a motivação, e costuma ser grande (leitura nossa). Mas renegociar uma dívida, abrir um orçamento ou pedir ajuda raramente parecem simples, e quase nunca aparece alguém na hora certa para dizer "agora". Dor alta, passo que parece difícil e nenhum gatilho é uma boa descrição de paralisia (leitura nossa).

Vale notar o que "habilidade" quer dizer aqui. Não é só saber fazer. Inclui ter tempo, ter cabeça para encarar o assunto e aguentar o desconforto de abrir uma conta que a gente evita há semanas (leitura nossa). Por isso o mesmo passo, ligar para um credor, pode ser simples para uma pessoa e quase impossível para outra, e a diferença nem sempre está na informação que cada uma tem.

O que a pesquisa mostra sobre esperar

Em 2022, o regulador financeiro do Reino Unido, a FCA, divulgou uma pesquisa com 2.969 mutuários em dificuldade financeira. Segundo o comunicado, 52% esperaram mais de um mês para buscar ajuda e, entre os que esperaram mais de seis meses, 67% disseram se arrepender de não ter procurado antes. Entre os que ignoraram as tentativas de contato do credor, 42% fizeram isso por vergonha. E 40% acreditavam, de forma incorreta, que apenas conversar com um assessor de dívidas prejudicaria o histórico de crédito.

52%
dos mutuários pesquisados esperaram mais de um mês para buscar ajuda [2]
67%
dos que esperaram mais de seis meses se arrependem de não ter procurado antes [2]
40%
acreditavam, incorretamente, que só conversar com um assessor de dívidas afetaria o histórico de crédito [2]

Olhando pelo modelo de Fogg, esses números combinam com um problema de habilidade: se o passo parece caro ou humilhante, ele fica mais difícil (leitura nossa). A crença errada sobre o histórico de crédito torna a ajuda mais arriscada do que é, e a vergonha torna o contato mais penoso do que precisaria ser.

E no Brasil?

Não encontramos, nas fontes que abrimos, uma pesquisa brasileira que meça quanto tempo as pessoas esperam para buscar ajuda. O que existe são retratos da dor e do tamanho do problema. No Estudo do Endividamento de 2021, feito pela Opinion Box com a Serasa com 6.646 pessoas, 88% dos entrevistados disseram que estar endividado é motivo de vergonha, 85% relataram o sono afetado e 76%, a concentração no trabalho [4].

88%
dos entrevistados dizem que estar endividado é motivo de vergonha (pesquisa de 2021) [4]
85%
relatam o sono afetado pelas dívidas (pesquisa de 2021) [4]
76%
relatam impacto na concentração no trabalho (pesquisa de 2021) [4]

Já o Mapa da Inadimplência da Serasa registrou 83,98 milhões de brasileiros com dívida em atraso em agosto de 2026, e 19,7 milhões de acordos de renegociação entre maio e agosto, alta de 36% sobre o mesmo período de 2025 [3]. O comunicado sugere, sem confirmar, que isso pode refletir mutirões de negociação e condições de pagamento mais facilitadas. Se for isso, combina com o modelo de Fogg: quando o caminho fica mais fácil e alguém convida a percorrê-lo, mais gente age (leitura nossa). Mas é a leitura da própria empresa, e os dados não provam essa relação.

O mesmo estudo de 2021 traz mais dois números que ajudam a entender o desgaste: segundo o comunicado, 70% precisaram escolher qual dívida pagar primeiro, e 54% estavam reincidindo no endividamento, contra 51% no ano anterior [4]. Escolher entre dívidas é uma decisão difícil de tomar sob estresse, e isso pode ser parte do que faz o primeiro passo parecer pesado (leitura nossa). Já a reincidência é um lembrete de que resolver uma dívida e mudar o que leva a ela são coisas diferentes, e o resto deste texto trata só da primeira.

Um cuidado com os números de vergonha: a edição de 2022 do mesmo estudo trouxe 51% para a vergonha da condição de endividado [5], bem abaixo dos 88% de 2021, e o comunicado de 2022 não informa a amostra. A medida varia, e o que ela mostra com segurança é que a vergonha existe, não o tamanho exato dela.

Nossa leitura · opinião do Feed Financeiro

O que isso diz sobre a gente

Talvez a gente trate a dor como se fosse a solução, como se sofrer com a dívida já fosse, de algum jeito, estar cuidando dela. Mas a dor é só o alarme: diz que algo precisa ser feito, não o quê nem como. Quando o primeiro passo parece grande demais ou vergonhoso demais, o alarme vira ruído de fundo, e a gente se acostuma.

A vergonha parece ser a peça que mais transforma dor em silêncio. Quem se envergonha não conta, não pergunta, não abre a carta. E o silêncio tem custo: no estudo britânico, dois em cada três dos que esperaram mais de seis meses se arrependeram. A pesquisa não é brasileira, e esta é uma leitura nossa, mas, se o caminho até a ajuda fosse mais curto e menos humilhante, talvez mais gente chegasse a ele antes.

O que está doendo no seu dinheiro hoje, algo que você já sabe que dói e ainda não encarou? E qual seria o primeiro passo tão pequeno que desse vergonha de não dar?

Conselhos práticos: encurtar a distância entre sentir e agir

São ideias nossas, aplicando o modelo de Fogg, e nenhuma depende de produto financeiro:

1

Dê um tamanho à dor

Escreva o que você deve, a quem e há quanto tempo. O número real costuma ser mais fácil de encarar do que a ideia vaga dele.

2

Encolha o primeiro passo

Em vez de "resolver as dívidas", combine "abrir a lista e olhar por dez minutos". Um passo pequeno exige pouca motivação.

Abrir o Meu controle
3

Marque um gatilho com dia e hora

"Quinta, às 20h, eu ligo." Um compromisso concreto faz o que a vontade sozinha não faz. E, para saber o que custa esperar, as calculadoras do site mostram o efeito do tempo.

Abrir as calculadoras
4

Quebre o silêncio com uma pessoa

Contar a alguém de confiança pode aliviar o peso da vergonha. Se for com o parceiro ou a parceira, vale ler por que falar de dinheiro a dois é tão difícil.

Nenhuma dessas ideias diz qual dívida pagar primeiro nem que solução escolher: isso depende da sua situação. O que elas fazem é diminuir a distância entre sentir e agir.

Perguntas frequentes

Quem sente mais dor financeira age mais rápido?

Não necessariamente. Pelo modelo de Fogg, a motivação é só um de três elementos: sem uma ação que pareça possível e sem algo que dispare o primeiro passo, a dor pode não virar comportamento. Na pesquisa britânica, mais da metade dos mutuários em dificuldade esperou mais de um mês para buscar ajuda.[1][2]

O que é o modelo de Fogg?

É um modelo do pesquisador B. J. Fogg, de Stanford. Segundo o Behavior Design Lab, um comportamento só ocorre quando motivação, habilidade (o quanto é simples fazer) e um estímulo que leve à ação, o prompt, convergem no mesmo momento. O laboratório também afirma que motivação e habilidade podem se compensar.[1]

Esperar para buscar ajuda é comum no Brasil?

Não encontramos, nas fontes que abrimos, uma pesquisa brasileira que meça quanto tempo as pessoas esperam. Os números de espera citados aqui são do Reino Unido, e podem não valer igual por aqui.[2]

Os números da Serasa são confiáveis?

São dados divulgados pela própria empresa. O comunicado do Mapa da Inadimplência não detalha a metodologia. O Estudo do Endividamento de 2021 informa amostra e margem de erro, mas não deixa claro quantos entrevistados estavam endividados, e a edição de 2022 traz um percentual de vergonha bem diferente (51%, contra 88% em 2021), sem informar a amostra. Vale lê-los como indício, não como medida exata.[3][4][5]

Fontes e referências (5)
  1. Fogg, B. J. (2009). A Behavior Model for Persuasive Design. Proceedings of Persuasive '09 (ACM). Descrição do modelo: Behavior Design Lab, Stanford University. Página do Behavior Design Lab (Stanford) · DOI do artigo.
  2. Financial Conduct Authority (FCA, Reino Unido). "Consumers struggling with rising prices urged to seek help." Comunicado de 06/07/2022 sobre a pesquisa Borrowers in Financial Difficulty, feita com a MoneyHelper (2.969 mutuários em questionário; trabalho de campo de outubro de 2021 a março de 2022). Comunicado da FCA.
  3. Serasa. Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas, agosto de 2026. Comunicado de imprensa. Comunicado da Serasa.
  4. Serasa e Opinion Box. Estudo do Endividamento 2021 (6.646 pessoas em todas as regiões do país, de 4 a 14/11/2021, margem de erro de 1,2 ponto percentual). Comunicado da Serasa.
  5. Serasa e Opinion Box. Perfil e Comportamento do Endividamento Brasileiro 2022. Comunicado de imprensa, sem informação de amostra, período de coleta ou margem de erro. Comunicado da Serasa.

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