Prosperidade: ser bem-sucedido com dinheiro e trazer benefício aos outros
O que significa prosperar? Uma pesquisa do regulador financeiro americano, estudos sobre gastar com os outros e dados brasileiros sobre doação sugerem que a prosperidade vai além do saldo e inclui ter liberdade para ajudar quem a gente quer ajudar.
Feito com base em um relatório do CFPB (regulador financeiro dos Estados Unidos), três estudos acadêmicos sobre gastar com os outros e bem-estar e na Pesquisa Doação Brasil (veja as fontes). Do relatório do CFPB lemos o texto completo; dos estudos de 2013 e 2020, os resumos; do estudo de 2008, o artigo. Os estudos medem felicidade e bem-estar relatados pelas pessoas, não riqueza. Conteúdo educativo: não recomenda doar a nenhuma organização nem produtos financeiros.
Quando alguém diz "prosperei", o que costuma querer dizer? Que tem mais dinheiro na conta? Que dorme melhor? Que consegue ajudar quem ama? Prosperidade é uma daquelas palavras que todo mundo usa e quase ninguém define. Algumas pesquisas ajudam a tirar a palavra do vago, e o que elas sugerem é que ser bem-sucedido com dinheiro e trazer benefício aos outros pode ser parte da mesma história.
O que é estar bem com dinheiro
Em 2015, o CFPB, órgão regulador financeiro dos Estados Unidos, publicou um relatório para responder a uma pergunta que a educação financeira raramente faz: o que ela quer alcançar? A equipe fez cerca de 60 horas de entrevistas com consumidores, revisou a literatura e consultou especialistas. A conclusão, descrita no relatório, é que o bem-estar financeiro tem quatro elementos: ter controle sobre as finanças do dia a dia e do mês, ter capacidade de absorver um choque financeiro, estar no caminho das próprias metas e ter a liberdade financeira para fazer escolhas que permitam aproveitar a vida.
Dois pontos chamam a atenção. O primeiro é que, segundo o relatório, o bem-estar financeiro é um espectro que não acompanha estritamente a renda: há pessoas longe de ser ricas que se sentem bem e pessoas com renda alta que não se sentem. O segundo é que, ao descrever o quarto elemento, o texto inclui poder ser generoso com amigos, família e comunidade. Os entrevistados falaram, de formas diferentes, de segurança e de liberdade de escolha.
Ajudar os outros também entra na conta
Se a generosidade faz parte do que as pessoas entendem por estar bem, vale perguntar se ela também faz bem. Os próprios autores de um estudo de 2008 partem de uma observação conhecida: dentro dos países, a renda tem um efeito confiável, porém surpreendentemente fraco, sobre a felicidade. A proposta deles foi olhar para como o dinheiro é gasto, e não só para quanto se ganha. Elizabeth Dunn, Lara Aknin e Michael Norton publicaram na revista Science três resultados. Numa pesquisa com 632 americanos, gastar mais com os outros se associou a mais felicidade, e gastar consigo, não. Num estudo com 16 funcionários que receberam um bônus de participação nos lucros, a parte do bônus gasta com os outros previu a felicidade seis a oito semanas depois melhor do que o valor do bônus. E num experimento com 46 pessoas, quem recebeu US$ 5 ou US$ 20 para gastar com outros ficou mais feliz do que quem gastou consigo. Os participantes, aliás, previam o contrário.
Em 2013, Aknin e colegas ampliaram a pergunta. Segundo o resumo do artigo, os dados de 136 países mostram que gastar com os outros se associa a mais felicidade, em países pobres e ricos, e experimentos no Canadá, em Uganda, na Índia e na África do Sul sugerem um efeito causal.
Esse último número é importante. Em 2020, Hui e colegas reuniram 201 estudos numa meta-análise na Psychological Bulletin. Segundo o resumo, o efeito médio foi modesto, e escondia muita variação: foi mais forte para o bem-estar de sentido e propósito do que para o prazer imediato, e a ajuda informal se ligou a mais benefícios do que a formal (o resumo não detalha como cada uma foi definida). Ou seja, ajudar os outros parece fazer bem, mas sem milagre, e o benefício varia com o jeito de ajudar.
E no Brasil?
A Pesquisa Doação Brasil, coordenada pelo IDIS, tem a quarta edição, com dados de 2024. Segundo o site da pesquisa, 78% dos brasileiros doaram em 2024, e o infográfico lista doações de dinheiro, de bens e de tempo como voluntário. Segundo o site, 43% doaram dinheiro para ONGs, campanhas ou grupos organizados, e metade da população doou para situações de emergência. A mediana doada por doador no ano foi de R$ 480, ante R$ 300 em 2022, e o total estimado de doações de indivíduos foi de R$ 24,3 bilhões, o maior volume da série, mesmo corrigindo os anos anteriores pela inflação, segundo o infográfico.
Há limites. A metodologia informa 1.500 entrevistas por telefone, entre março e abril de 2025, com maiores de 18 anos e renda familiar acima de 1 salário mínimo, e margem de erro de 2,5 pontos percentuais. O "78% dos brasileiros" vale para esse universo, não para quem ganha menos, e é o que as pessoas dizem ter doado. Além disso, a pesquisa mede quanto se doa, não se isso faz bem a quem doa: não encontramos, nas fontes que abrimos, um estudo brasileiro sobre doação e bem-estar, então a ligação entre as duas coisas vem dos estudos de fora.
O que isso diz sobre a gente
Talvez a gente trate prosperar como uma subida em que cada degrau é mais dinheiro, e ajudar os outros como algo para depois, quando sobrar. Os dados sugerem uma leitura diferente: quando as pessoas descrevem estar bem com dinheiro, falam de segurança e de liberdade de escolha, e a liberdade de ser generoso está no meio disso. Isso é uma leitura nossa. A ajuda não aparece como o preço do sucesso, e sim como uma das coisas que o dinheiro permite.
Isso vale com cuidado. Ajudar sem se faltar depende de ter margem, e o próprio CFPB coloca a capacidade de absorver um choque ao lado da liberdade de escolher. Também não há aqui uma obrigação: os estudos falam de benefícios modestos, e o mesmo gesto pode pesar diferente em cada vida. O que parece valer a pena é decidir esse espaço de propósito, em vez de deixá-lo ao acaso.
Para quem você gostaria de ter sobra no seu dinheiro? E o que seria "o bastante" para você poder ajudar sem se faltar?
Conselhos práticos: dar forma à sua prosperidade
São ideias nossas, não recomendações dos estudos, e nenhuma depende de produto financeiro:
Escreva o que "prosperar" quer dizer para você
Use as quatro perguntas do CFPB: tenho controle do mês? Aguentaria um choque? Estou no caminho das minhas metas? Tenho liberdade para escolher? A resposta mostra onde está a lacuna.
Combine antes um espaço para ajudar
Reservar um valor no mês para quem você quer ajudar, do tamanho que couber, tira a generosidade da sobra e a coloca no plano.
Abrir o Meu controlePrefira o tipo de ajuda que faz sentido para você
A meta-análise liga a ajuda informal, e não a formal, a mais benefícios, embora o resumo não detalhe como as definiu. Dinheiro é uma forma de ajudar; tempo e atenção também contam.
Primeiro a margem, depois o resto
Quem tem folga para um imprevisto ajuda com mais tranquilidade. As calculadoras do site mostram quantos meses sua reserva cobre.
Abrir as calculadorasNenhuma dessas ideias diz quanto dar nem a quem: isso é escolha sua. O ponto é que prosperar, para as pessoas ouvidas nessas pesquisas, parece ter pouco a ver com acumular sozinho.
Perguntas frequentes
Doar dinheiro deixa a pessoa mais feliz?
Os estudos apontam que gastar com os outros se associa a mais felicidade, mas o efeito médio é modesto. Uma meta-análise de 201 estudos, com 198.213 pessoas, encontrou r = 0,13, com bastante variação conforme o tipo de ajuda e o tipo de bem-estar medido. Os experimentos de 2008 e 2013 indicam efeito causal, mas o de 2008 teve 46 participantes.[2][3][4]
O que o CFPB chama de bem-estar financeiro?
É um estado em que a pessoa tem controle sobre as finanças do dia a dia e do mês, capacidade de absorver um choque financeiro, está no caminho das suas metas e tem liberdade financeira para fazer escolhas que permitam aproveitar a vida. Ao descrever esse último ponto, o relatório inclui poder ser generoso com amigos, família e comunidade.[1]
Preciso ser rico para ajudar os outros?
Nenhuma das fontes diz isso. O CFPB conclui que o bem-estar financeiro não acompanha estritamente a renda, e o estudo de 2008 com o bônus de 16 funcionários achou que a forma como o dinheiro foi gasto previa mais a felicidade do que o tamanho do bônus. Mas o ponto vale com cautela: é um grupo pequeno, e os dados brasileiros sobre doação cobrem só pessoas com renda familiar acima de 1 salário mínimo.[1][2][5]
Os dados da Pesquisa Doação Brasil valem para todo o país?
Valem para o universo pesquisado: maiores de 18 anos com renda familiar acima de 1 salário mínimo, ouvidos por telefone. A pesquisa pergunta o que a pessoa conta ter doado e é ponderada pelo Censo 2022 e pela PNAD 2024, segundo a metodologia, mas não cobre quem ganha menos.[5]
Fontes e referências (5)
- Consumer Financial Protection Bureau (CFPB, Estados Unidos). Financial well-being: The goal of financial education. Relatório de janeiro de 2015, baseado em revisão de literatura, painel de especialistas e cerca de 60 horas de entrevistas aprofundadas com consumidores. Página do relatório (CFPB).
- Dunn, E. W., Aknin, L. B., & Norton, M. I. (2008). Spending Money on Others Promotes Happiness. Science, 319(5870), 1687–1688. Referência e DOI · Registro do artigo.
- Aknin, L. B., et al. (2013). Prosocial spending and well-being: Cross-cultural evidence for a psychological universal. Journal of Personality and Social Psychology, 104(4), 635–652. DOI · Versão de trabalho (NBER).
- Hui, B. P. H., et al. (2020). Rewards of kindness? A meta-analysis of the link between prosociality and well-being. Psychological Bulletin, 146(12), 1084–1116. DOI.
- IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social). Pesquisa Doação Brasil, 4ª edição (dados de 2024): entrevistas telefônicas (CATI) com 1.500 pessoas maiores de 18 anos e com renda familiar acima de 1 salário mínimo, feitas entre março e abril de 2025, margem de erro de 2,5 pontos percentuais. Site da pesquisa · Metodologia · Infográfico da edição de 2024 (PDF).
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